I'm probably losing my mind.

Tu és como aquele par de calças de ganga que eu gostava muito.
Usei-as até ficarem gastas porque me habituei ao conforto, e, apesar de já não as vestir há alguns anos, tenho a certeza absoluta que ainda me serviam e me ficavam mesmo bem.



Felizmente, comprei umas novas. Gosto mais da cor destas.

E a ti, guardei-te no fundo do armário.

Aur Revoir Simone

I saw it coming
I just thought that you should know
I'm feeling better every day
I'm only waiting if you stay
So don't feel bad
Your faith was an illusion
And you're as loyal as your faith
Will let you be

Your expectation
It's not hard to live without
I'm feeling better every day
And emptiness still leaves a space
So don't feel bad
You lost all your emotion
And may you find all your relations
Will keep you free

A careless bird is complicated
An empty nest still leaves a space

Pensava que já estavas bem, disse ele

Eu consigo estar sempre bem, respondeu ela, é uma das minhas virtudes.
Fui tão feliz nestes últimos três anos.
Tudo graças a eles, graças ao sitio que era, graças às "pessoas grandes" que nos apoiaram. A nós, à canalhada desgraçada que caiu alí por engano, ou por último recurso ou por esperança.

Não consigo evitar derramar nem que seja uma lágrima ao saber que esta fase da minha vida acabou. Uma fase tão feliz, que vou recordar para sempre.
Não vai haver mais intervalos, mais cravas, mais música nas alturas para quem quer e não quer ouvir. Ficam sempre as discussões por causa disto e daquilo, por coisas estúpidas e por coisas sérias. Mais presentes ainda, os abraços, aqueles abraços, de cansaço ou de alívio ou de alegria ou simplesmente porque sim, porque nos apetece tocar naquela pessoa que ali está connosco, a sentir o mesmo que nós.
As figuras estúpidas a caminho do café habitual, os finos e os panachés a mais, o verdadeiro joint bem feito que calha mesmo bem.

O stress e a doçura de quem nos aturou estes três anos. Aquelas professoras que, por muito chatas que sejam as vezes, são as que nos dão esperança, as que sempre nos disseram para não desistirmos de nós mesmos, mesmo quando saíamos a gritar aos sete ventos que já não as aguentamos mais.
Aqueles rapazes especiais que não dizem mais nada que não merda, que não dão uma para a caixa, que são inconvenientes, mas que nos fazem explodir de riso.
Aquelas raparigas que cresceram mais em 2 anos que na vida inteira, que são lindas, que toda a gente inveja, que toda a gente quer saber quem são.
Aquelas que estão mais à parte, que passam despercebidas, que lutam pelo que querem e, podem até ser mal interpretadas, mas que são donas duma força imensa.
Aquele casal maravilhoso que consegue estar sempre junto, que se apoiam e inevitavelmente dão uma secreta e tremenda esperança de que todos podemos ter sorte.
Aquele canto, aquele canto que ensina a todos que as aparências enganam, que são pessoas interessantes, inteligentes e que nos dão uma lição se for preciso.
Aquele grupo que levamos connosco nas horas ausentes, o crava, a rapariga doce, o rapaz elegante, a maria rapaz, o pseudo-nipónico, o cobain e o engatatão.

Aquela maluca que é porreira para toda a gente mas que detesta inglês, que arranja tabaco a toda a gente e ilumina as salas em que entra, mesmo de ressaca. A primeira pessoa com quem falei, a primeira pessoa a quem me apeguei e nunca mais quero largar.

Aquela rapariga de cabelo aos caracois, as vezes liso, que me fez parar o coração da primeira vez que a vi, que me fez gostar de coelhos para sempre, que nunca, nunca desiste e não muda por ninguém.

Aquele rapaz estúpido mas tão querido. Tão talentoso com a guitarra, que dá concertos gratuitos na escola, mas que consegue quase fazer chorar quem ouve com atenção.

Fui tão feliz, tão feliz.
Tudo de bom, tudo de mau, foi tudo ali, sofrido ali, sentido ali, com todos eles.

Fui mesmo muito feliz.
Acreditam?



Mesmo muito feliz.

Memorial do Convento.

"Saíram ambos, Blimunda acompanhou Baltasar até fora da vila, viam-se ao longe as torres da igreja, brancas sobre o céu encoberto, ninguém o esperaria, depois da clara noite que foi. Abraçaram-se os dois no recato duma árvore de ramos baixos, entre as folhas douradas do Outono, pisando outras que já se confundiam com a terra, alimentando-a, para reverdeceram de novo. Não é Oriana em seu traje de corte que se está despedindo de Amadis, nem Romeu que, descendo, colhe o debruçado beijo de Julieta, é somente Baltasar que vai ao Monte Junto remediar os estragos do tempo, não é mais que Blimunda impossivelmente tentando que o tempo pare. Com as suas vestes escuras, são duas sombras inquietas, mal se separam, logo se aproximam, não sei que adivinham estes, que outros casos se preparam, porventura tudo será obra da imaginação, fruto da hora e do lugar, de sabermos que o bem não dura muito, não demos por ele quando veio, não o vimos quando esteve, damos-lhe pela falta quando partiu, Não tardes por lá, Baltasar, Dorme tu na barraca, posso chegar já de noite, mas, se houver muito que consertar, só venho amanhã, Bem sei, Adeus Blimunda, Adeus Baltasar."


Tu não tens culpa de tudo o que te aconteceu, outras pessoas também são de apontar o dedo. Podes dizer o que quiseres que eu vou dizer que compreendo, ou esperar que me expliques, porque apesar das tuas crises existenciais serem (quase na sua totalidade) absurdas, há sempre um momento em que até tens razão. Deixa-me só entrar no teu mundo e ver por que regras te reges.
Já não precisas de sofrer por essas coisas, já tudo passou e tu estás aqui.
Há coisas que não se evitam. Eu sei, há coisas que tu não controlas. Não, não te vou ignorar. Não, não me vou esquecer de ti. Vou levar-te comigo para onde quer que vá, e desta vez é a sério. Não vou estar sempre a pensar em ti, mas não te vou deixar cair no esquecimento. Tu importas. Tu és importante para mim. Tu vais ser alguém.

Chora a mágoa que tens. Chora o peso da vida. Chora, que eu choro contigo.
Se tiver de escolher entre ti e a minha sanidade, acho que a escolha é óbvia.

nada mais o amor te deve.

Tenho contas a acertar comigo.

Por não ter gostado de mim o suficiente, por não ter dado importância a pequenas coisas, por não fazer um esforço para me levantar da cama, por ter deixado que abusassem de mim, que me magoassem, que me fizessem coisas que quero esquecer.
Não cantei vezes suficientes a felicidade que me ia no peito. Nunca aprendi a lidar com ela e nunca me forcei a aprender. Felicidade era insegurança, felicidade fugia e eu podia deixar-me ficar sem a aproveitar, sem a gastar, guardar para mais tarde, quando valesse a pena estar feliz.

Tenho contas a acertar e pouco tempo. Mas são coisas que têm de ser feitas.
Agora não vai ser diferente. TEM de ser diferente.

this raging light.

Deixei tudo para trás, hoje. Trouxe apenas a roupa que tenho no corpo e meti-me no carro. A velocidade aumenta e transforma as luzes em fragmentos que dançam no canto do olho, livres, felizes e inocentes. Elas não sabem o que aconteceu, não sabem de nada.

"Como foi o teu dia?"

Não, isto é só a minha imaginação. Tu não estás aqui. Se fosse real, perguntavas isso da mesma forma automática, pré-programa, entediada de sempre, sorrindo tristemente com medo que eu respondesse a queixar-me, da vida, do trabalho, a inundar-te a mente com coisas que não precisas de saber. Como pode o meu cérebro atrever-se a fazer-me isto, a cravar-te em mim desta maneira. Nem ele mesmo sabe o que aconteceu, não sabe nada.

Não, isto é só uma ilusão. O teu cabelo esvoaça, quase tocando no meu rosto, e a tua voz, o teu riso, é mais alta que o rádio, que o barulho causado pelo vento. O teu cabelo cobre-te a cara e tu ris mais e mais, mas tu não estás aqui, não estás aí sentada a tentar falar comigo como há muitos anos atrás. Se eu soubesse, se eu apenas soubesse, eu tinha esticado o braço, afastado o teu cabelo e sentido a tua pele. Mas eu não sabia, não sabia nada.

O meu carro sabe o caminho de cor, não sou eu a controla-lo, eu não sei o que estou a fazer. Tenho os olhos, os ouvidos, cheios com aquele momento repetitivo. O teu olhar, o teu cabelo, os teus gestos, o teu riso a esconder tudo o que eu não sabia e nunca quis saber, perdido nas minhas próprias guerras. Quase consigo abraçar aquele momento, aquele momento em que eu não sabia nada.

A velocidade aumenta freneticamente e o ponteiro dança com a minha sorte, com as luzes de outros carros e buzinas perdidas no ar, de condutores que não sabem o que se passa, que não sabem nada.

Na verdade, hoje atrasei-me para chegar a casa. Prenderam-me no trabalho com montanhas de papelada que não serve para nada a não ser ocupar o tempo de quem a preenche. Burocracias. Eu pensei que não te importarias, não era algo fora do normal.
Mas nunca, nunca pensei, que ao chegar teria o teu corpo moribundo à minha espera.
Tu como um pedaço de carne, sem mais nada a não ser carne e sangue e a corda ao teu pescoço. Tudo isso selado com um sorriso.

Se eu apenas soubesse. Mas eu não sabia, não sabia nada.

"Foi bom."

"Ainda bem, querido."

Eu não sabia nada.

canção da lua.

mãe
eu já não sou quem era
agora tenho a minha guerra
a minha luta privada
ainda oiço a canção da lua
só já não me afasta do nada

mãe
a vida é esta merda
dela só o cheiro se herda
trocamos sonhos por qualquer porcaria
canta de novo a canção da lua
enquanto não chega o dia


Foge Foge Bandido

Inês?

Não sei, não me perguntes porque não sei. Não me doi nada, não penses isso. Não há ninguém a magoar-me, não está nada a preocupar-me. Não sei. Não sei porque não sei. Estas coisas nunca se esperam, por isso para de me perguntar. Para de me tocar, não preciso de abraços. Para de tentar, para de falar, já te disse que não sei. Não preciso da tua ajuda, não preciso de ti. Não sei. Não sei porquê, não sei onde, não sei quando. Não sei e não sei porque não sei.

Quando souber, a gente combina qualquer coisa e eu respondo-te.
Afinal não avancei nem um passo. Estou na mesma, no mesmo lugar em que me deixei ficar desde que nos afastamos. Neurótica. Paranóica.
As vezes quero acreditar que foste tu, na tua infinita crueldade que me tornaste assim. Mas tu não tens culpa. És só uma pessoa. Somos só pessoas e as pessoas fazem coisas destas. Desperdiçam horas e dias e semanas e meses e anos umas com as outras, porque é isto que as pessoas fazem. E fazemos com todo o gosto, porque é bom na altura. Porque quando doi, doi por um bom motivo. E eu sempre pensei que a tua crueldade fosse acabar, pensava inocentemente que um dia ias ser diferente, que te podia mudar, que ías mudar, que ías ser melhor. Porque eu sou mulher, e a minha personalidade clichè é assim.
Jurei na altura nunca mais perder tempo com alguém como tu e apareceu-me alguém que me lembra de ti e eu fui atrás, feita estúpida. Mas eu agora não consigo ser como era contigo, porque tiraste-me a vontade de lutar pelo que quer que seja, porque as pessoas não mudam, as pessoas ficam na mesma.
As pessoas ficam sempre na mesma. Eu fiquei na mesma. Doente. Débil mental. Porque foste tu que me fizeste assim, foste tu que me deixaste assim. Mas não faz mal, porque estas coisas acontecem.

- Hm? Disseste alguma coisa?

- Eu? Não.