this raging light.

Deixei tudo para trás, hoje. Trouxe apenas a roupa que tenho no corpo e meti-me no carro. A velocidade aumenta e transforma as luzes em fragmentos que dançam no canto do olho, livres, felizes e inocentes. Elas não sabem o que aconteceu, não sabem de nada.

"Como foi o teu dia?"

Não, isto é só a minha imaginação. Tu não estás aqui. Se fosse real, perguntavas isso da mesma forma automática, pré-programa, entediada de sempre, sorrindo tristemente com medo que eu respondesse a queixar-me, da vida, do trabalho, a inundar-te a mente com coisas que não precisas de saber. Como pode o meu cérebro atrever-se a fazer-me isto, a cravar-te em mim desta maneira. Nem ele mesmo sabe o que aconteceu, não sabe nada.

Não, isto é só uma ilusão. O teu cabelo esvoaça, quase tocando no meu rosto, e a tua voz, o teu riso, é mais alta que o rádio, que o barulho causado pelo vento. O teu cabelo cobre-te a cara e tu ris mais e mais, mas tu não estás aqui, não estás aí sentada a tentar falar comigo como há muitos anos atrás. Se eu soubesse, se eu apenas soubesse, eu tinha esticado o braço, afastado o teu cabelo e sentido a tua pele. Mas eu não sabia, não sabia nada.

O meu carro sabe o caminho de cor, não sou eu a controla-lo, eu não sei o que estou a fazer. Tenho os olhos, os ouvidos, cheios com aquele momento repetitivo. O teu olhar, o teu cabelo, os teus gestos, o teu riso a esconder tudo o que eu não sabia e nunca quis saber, perdido nas minhas próprias guerras. Quase consigo abraçar aquele momento, aquele momento em que eu não sabia nada.

A velocidade aumenta freneticamente e o ponteiro dança com a minha sorte, com as luzes de outros carros e buzinas perdidas no ar, de condutores que não sabem o que se passa, que não sabem nada.

Na verdade, hoje atrasei-me para chegar a casa. Prenderam-me no trabalho com montanhas de papelada que não serve para nada a não ser ocupar o tempo de quem a preenche. Burocracias. Eu pensei que não te importarias, não era algo fora do normal.
Mas nunca, nunca pensei, que ao chegar teria o teu corpo moribundo à minha espera.
Tu como um pedaço de carne, sem mais nada a não ser carne e sangue e a corda ao teu pescoço. Tudo isso selado com um sorriso.

Se eu apenas soubesse. Mas eu não sabia, não sabia nada.

"Foi bom."

"Ainda bem, querido."

Eu não sabia nada.

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